Escrito por Marcelo Lopes Máximo02 Abril 2013Acessos: 1991

Ali de Mineiro

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Um caminhante, num determinado ponto de sua caminhada, ficou indeciso sobre qual rumo seguir ao deparar com uma encruzilhada. Parou um instante, procurou um local mais elevado e sentou-se numa rocha mais alta, com vista panorâmica de 360º. Ao observar ao seu redor, por sinal, que bela paisagem ele contemplava! Observando aquela paisagem ele procurava se localizar, quando avistou à sua frente, sentido Norte, uma casinha amarela de janelas e portas azuis, saindo pela chaminé, uma tênue fumaça que inspirava aconchego... Ao aproximar-se do local, viu no terreiro um homem aparentando uns 45 anos, num estilo rigorosamente caipira, sentado num rústico banco, à sombra d'uma frondosa mangueira, pitando um rolão -fumo do bom-, vagando na imensidão do seu pensamento...O caminhante, na sua necessidade de informação, interrompeu aquela tranqulidade zen e gritou:

- Hei moço! Boa tarde! O senhor pode me dar uma informação?
- Tardi! Si acumodi prá cá! U sinhô tá predidu?
- Eu estou com uma dúvida! Onde é o caminho mais curto prá se chegar à Serra do Gavião?
- Há! Qualé a sua graça? Ieu vô ti ispricá como si chega na Serra du Gavião. É logo ali! ( Apontou ao longe!)
- Meu nome é Di Freitas! E o seu?
- U povu mi chama di Sô Pelegrinu!
Ambos:
- É um prazer!
- Bão! A Serra du Gavião é logo ali!
- Ali onde?
- U sinhô tá venu aquela serra pontuda?
- Há sim! Estou vendo! É lá?
- Não! Ali é a Serra da Bicha!
- Da Bicha?
- É! Mas num si avexi não sinhô qui num a bicha cu sinhô tá pensanu não!
- Mas porque Serra da Bicha?
- É pruqe lá tinha cada baita de bicha grandi qui assustava todu mundu. Elas cumia bizerru, cabritu, viadu, galinha, tinha bicha tão grandi qui cumia inté boi i si achava genti distraída cumia também. Ieu
qui num sô bobo, num triscava os pé prás bandas del á...
- Mas que bicha ou bicho grande era esse? Ainda tem por lá?
- Uai sô Di Freitas! U sinhô tá cu medu? Num si assusti não... u povu foi cheganu, cortanu us matu i dispois foi ponu fogo; aí as bicha se assustaru i foru tudin imbora. Num ficô nem uma oncinha!...
- Há! Agora entendi! É Serra da Bicha porque tinha muita onça por lá!
- Istu mermu! Inté qui u sinhô é ispertu! Pois é, intonci u sinhô dispois qui virá a Bicha, u sinhô vai avistá otra serra, a Serra da Gurita.U sinhô vai quasi virá ela, mas num vira não. U sinhô pega um ataio qui ela vai ficá na sua direitia. Já já u sinhô chega lá. É logo ali!
- Puxa! Seu Pelegrino! O senhor chama isto tudo de logo ali?
- Uai sô Di Freitas! Essi lugar cu sinhô prumodi tá querenu í num é longe não uai!
- Como assim não é longe? O senhor disse para eu virar a Serra da Bicha e depois quando avistar a Serra da Gurita, eu deixá-la á minha direita...
- Ora! Mas ieu aindia nu acabei a ispricação sõ Di Freitas!
- Não?!? Seu Pelegrino?
- Não! Faiz u siguinti: U sinhô que dá uma baforada aqui no meu rolão, é fumu du bão! Aí o sinhô relaxa...

O senhor Di Freitas, sem melhor opção naquela imensidão de mundo, logo aceitou o convite de dar uma baforada no rolão do caipira Pelegrino.
- Há! Me dá uma tragadinha só!

O caipira passou o rolão para ele , e Di Freitas, deu a primeira tragada, as bolas dos seus olhos giraram, uma no sentido horário e outra no sentido anti-horário... Ele só não caiu porque estava sentado no rústico banco, à sombra da frondosa mangueira, ao lado do seu anfitrião e informante, o senhor Pelegrino. O caipira faltando alguns dentes, falou sorridente:
- Vixi Maria! Os zóio du sinhô tá arregaladu i verméiu qui zóio di curuja.
- É que este fumo é muito forte! Parece até burro bravo!
- É prantação daqui mermu...
- É forte mas é bom! Gostei!
- Intonci moçu, continuanu a ispricação, dispois cu sinhô virá a Serra da Bicha i passá pertio da Serra da Gurita, u sinhô vai siguinu inté depará com uma mata, é só sigui a tria, atraveçá a mata qui lá na frenti u sinô vai dá num rio...
- Eu vou dar no rio? que prosa ruim seu Pelegrino!
- Não seu Di Freitas! Num é dessi dá cô tô falanu não! Condu u sinhô chegá no rio é só atraveçá a pinguela, ela balança mas num cai; aí dispois u sinhô vira a direitia e segui in frenti, atraveça a vargi i condu avistá um morru, u sinhô sobi ele i dispois desci do otro ladu. Quando chegá lá imbaxu, u sinhô pega a tria da isquerda i segui in frenti,essi ataio incurta mutio u caminhu, dispois é só andá mais um tiquin di nada cu sinhô vai acbá danu na Serra du Gavião. É logo ali!...
O senhor Di Freitas, perplexo com o tamanhâo do ali do mineiro Pelegrino, chegou até pensar em voltar. Todavia, lembrou-se que para chegar ao topo da montanha, não devemos preocupar com as pedras do caminho, e decidiu seguir rumo ao seu destino. Despediu-se do simpático nativo:
- Muito obrigado seu Pelegrino! O senhor foi muito gentil!
Caracterizado pela hospitalidade mineira, o caipira tranquilizou o caminhante que já estava até mais calmo após outras baforadas no rolão , ele disse:
- Ô seu Di Freitas! Já tá meiu tardi! Si acumodi prá qui hoji! Tem uma linda cachuera pertin daqui. U sinhô toma um café cu nóis, dromi aqui mermu i di manhã cedu u sinhô segui viaji. É só num arrepará! A casa é di pobri mas é tudin limpim...a minha muié i as minha fia tão lá na fonti lavanu rôpa. Já já elas chega i ajeitia um café prá nóis. Incontu istu nóis vai lá na cachuera.
- Nossa seu Pelegrino! Quanta gentileza! É por isto que o Brasil inteiro fala da hospitalidade mineira! Eu acho que vou aceitar, estou um pouco cansdo. Estou até mesmo precisando de um banho de cachoeira para repor as energias...Eu não vou dar nenhuma alteração. Eu armo minha barraca aqui no terreiro mesmo. Tá tudo bem?
- U sinhô fica a vontadi! Inté bão qui a noiti nóis faiz uma fogueira i ieu ti ispricu u caminhu bem direitio.
O caipira Pelegrino, rabiscou um bilhete para sua esposa e com um espinho de laranjeira, deixou-o pregado na parde de adobe. O bilhete dizia o seguinte:
- "Minha quirida muié Facira fui cum andariú na cachuera eli vai drumi aqui hoji pedi as minina prá ti ajudá fazê uma merenda prá nóis nóis vorta já dispois si quizé pódi inté i adiantánu a boiá. Abraçú du seu ômi Pelegrinu"
O senhor Di Freitas deixou sua bagagem num canto e seguiu com o senhor Pelegrino rumo á cachoeira. Chegando lá, êxtase! Que cachoeira exuberante! Após mais algumas baforadas e fumaçadas no rolão do caipira, com as bolas dos olhos em intenso giro, a cabeça nas nuvens, o corpo na água e os pés suspensos, ele não sabia se era um peixe para nadar, um pássaro para voar ou uma folha para boiar... Enquanto decidia, ficou ali "flutuando" na água, reabastecendo o corpo e a alma com a mais pura energia...
Mais uma amizade foi selada empaticamente naquele rincão do Brasil, entre um caminhante do Norte e um nativo do Sul, em pleno sertão das Minas Gerais. Isto é globalização!
De volta, já perto da casa, sentiram o cheiro delicioso do café de rapaduraque vinha acompanhado do cheiro hipnótico d'um bolo de fubá com queijo. Que lanche! Ao chegarem, o senhor Pelegrino, orgulhosamente, apresentou a sua linda família:
- Esta é a minha muié, dona Faceira! I estas duas são as nossa fia: Ysabella i Singela.
Tres belas caboclas! A esposa e as filhas do seu Pelegrino!
- Prazer! Eu sou Di freitas. Não tive como recusar o convite do seu marido e vou passar esta noite com vocês.
A bela matriarca, a dona Faceira, na robustez dos seus 37 anos, respondeu:
- Fiqui a vontadi! Já tem uma merenda pronta i mais tardi nóis acaba di ajeitiar a janta...
Nas devidas proporções do respeito, o senhor Difreitas ficou encantado com a simpatia e beleza das mulheres daquela famlía feliz.
E, ao cumprimentar as duas filhas do casal anfitrião, Ysabella de 20 anos e Singela de 17, numa fração de segundos, houve uma troca de um olhar alquímico entre ele e Ysabella, que o fez relaxar ainda mais e até esquecer o tamanho do ali de mineiro.
Após mais algumas horas d'uma animada prosa, dona Faceira, anunciou com alegria lá da cozinha:
- Ô Pelegrino meu ômi quiridu! A janta tá pronta. Chama o moçu prá cumê incontu tá quenti!
- Ô Faceira minha muié quirida! U qui tem aí prá nóis cumê?
- Ô meu ômi quiridu! Nóiz feiz custelinha di porcu com purnobi, angu, arroiz, feijão preto, cebola i gondó. Tem também uma pimenta de bode arretada!
- Ô muié! Ocê é uma anju di bão! Meu istomu tá inté roncanu.
O já aconchegado Di Freitas lambeu os beiços! Ao receber o prato e garfo nas mãos, foi ao fogão à lenha servir aquela auspiciosa comida.
O senhor Pelegrino perguntou:
- Sô Di Freitas! U sinhô toma uma branquinha? Nóis tem uma da boa!
- Oh! sim, vou aceitar!
- Saúde! (Brindaram em duas cabacinhas).
Todos se fartaram e após mais alguns dedinhos de prosa e um caloroso boa noite, cada uma foi para o seu canto e Di Freitas se ajeitou em sua barraca; ainda teve tempo de trocar mais um olhar alquímico com a bela Ysabella...A noite foi longa, os sonhos foram lindos e reveladores, ali naquele simples , belo e aconchegante recanto das Minas Gerais.
No outro dia, bem cedinho, após um saboroso café de rapadura e cuscuz, e mais algumas baforadas de despedida no rolão do seu Pelegrino e agradecimentos; Di Freitas, ainda enrolando para sair, á espera de um último olhar alquímico em Ysabella, falou:
- Muito obrigado senhor Pelegrino! Que Deus lhe abençoe pela atenção e pela hospitalidade. Eu voltarei aqui!
- Não há di que sô Di Freitas! Nóis tamu, todu mundu prá sigui juntiu i ajudá os otro conu elis pricisá. Assim Deus manda i nóis faiz!
Se abraçaram emocionados!
- Muito obrigado dona Faceira! Desculpem-me pelas amolações...
A senhora é uma cabocla abençoada. Que vocês sejam muito felizes!
- Ora moçu! U qui é di nóis si nóis num istendê as mão condu os otro pricisa?
O qui nóis vai dizê pru "MOÇU" lá do Céu, comdu nóis fô prá lá?
Outro abraço emocionado!
- Aprendi muito com vocês! Fiquem com Deus que eu já vou indo, porque o meu ali é bem pra lá do longe acolá... vou voando rumoà Serra do Gavião, levando vocês no meu coração...
O coração do senhor Di Freitas dispara, aparecem Ysabella e Singela para se despedirem... todos perceberam os olhares alquímicos e sorriram...O senhor Pelegrino deu as últimas instruções:
- Intonci u sinhô intendeu tudin né? É só só sigui as minha ispricação cu sinhô vai acabá danu nu lugar certin...num tem erru não sô Di Freitas, é só sigui in frenti cu sinhô vai acabá danu na Serra du Gavião. É logo ali!...( Apontou para o horizonte longínquo). Vá com Deus!
Dona Faceira também deu uma pitadinha de informação, reforçando a explicação do marido:
- U sinhô intendeu bem as ispricação do meu maridu, é só guardá bem as coisa qui eli ti falô qui u sinhô num vai dá no lugá erradu di jeitio ninhum. É só sigui as ispricação dele qui u sinhô logo logo vai dá lá na Serra du Gavião! É logo ali!...Qui Nossa Sinhora ti guie i ti proteja.
O caminhante, o senhor Di Freitas, logo acostumou com a pureza de intenção das palavras daqueles simpáticos nativos e nem se importava mais com aquele negócio de dar no lugar certo... seguiu seu rumo, seu destino rumo à Serra do Gavião. A cada passo lembrava da hospitalidade daquela família e lembrava ainda mais da troca de olhares alquímicos com a bela Ysabella. Ele prometia para si mesmo que voltaria ali para conversar sério com seu Pelegrino e dona Faceira, lógico! Caso Ysabella lhe concedesse a sua mão...
O senhor Di Freitas, tinha certeza de que nada ia dar errado, pois ele havia entendido tudo certinho e de acordo com bem informou o casal de nativos, a Serra do Gavião seria logo ali...
Desculpem-me ilustríssimos(as) leitores(as) pela delonga deste texto. É que não teve jeito mesmo de ser menor, pois este texto é um legítimo ali de mineiro e com todo mundo sabe, ali de mineiro é um trem danado de grande, e quem não está acostumado, quando depara com ele de frente, chega até assustar com o tamanho dele. Mas é só seguir os trilhos que o trem grande leva você em seu destino. Logo logo! Pois ali de mineiro não é aqui nem cá, é bem lá! Óh! Minas Gerais quem te conhece não esqueces jamais!... DO ALI DE MINEIRO...

FIM!

Welinton Magno da Silva é Guia de Ecoturismo em Santo Antônio do Itambé, gente finíssima, essa crônica foi retirada do seu blog; http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=52383

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