20 Setembro 2012Acessos: 1822

A Selvagem Serra do Cabral

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Quase no centro geográfico de Minas Gerais - quem diria? – ainda há um trecho do sertão de Guimarães Rosa, despovoado de gente, mas ainda lar de animais quase extintos. Trata-se da Serra do Cabral, contraforte a oeste do Espinhaço, com formato piramidal, delimitada pelos rios Curimataí, Jequitaí e Velhas. Também três são as cidades no seu entorno: Buenópolis, Joaquim Felício e Lassance. As duas primeiras surgiram em torno de paradas do trem que liga Beagá a Montes Claros. A última, antigo reduto pecuário, foi onde o genial Carlos Chagas descobriu a doença que leva seu nome, transmitida ao homem por barbeiros que infestavam as casas de pau-a-pique e adobe.

As chapadas - com predominância de gramíneas, e incontáveis cursos d’água – as veredas – com seus indefectíveis buritis, matas ciliares e sempre-vivas. Afloramentos de quartzito, com relevo ruiniforme, abrigam cactáceas, bromélias e orquídeas, além de pinturas rupestres. Além disso, na região, em Augusto de Lima e no distrito de Curimataí, há duas das quatro fontes termais do Espinhaço.

Tamanha riqueza de flora e fauna motivou a criação do Parque Estadual da Serra do Cabral, em torno de 30 mil hectares. Ainda não aberto ao turismo, sua administração tem sido bastante restritiva na concessão de autorizações de visita. Mas há várias áreas fora dos limites do parque que podem ser visitadas, com belas cachoeiras, como a de Curimataí, e outras nos municípios citados.

Talvez a melhor época para passear por lá seja de abril a julho, logo após o período das chuvas. Fizemos caminhada de dois dias, de grau difícil, no mês de maio 2012, saindo de Buenópolis, passando em pequeno trecho do território de Lassance, no alto da serra, e descendo em Joaquim Felício, após 47 km.

A van subiu a serra até onde pôde, a uns 800 metros de altitude. A partir daí, continuamos subindo pela estradinha e, com pouco mais de hora caminhando, desviamos para banho num poço à direita. Rumo ao leste, o Espinhaço descortinava os morros próximos a Diamantina. Retomando o trajeto, agora por trilha, adentramos ao chapadão, já em torno de 1100 metros de altitude, serpenteando por extensas faixas de pepalantus (uma espécie de sempre-viva) floridos. Caminhantes calejados por décadas revelaram jamais terem visto tal profusão delas!

Pouco mais à frente, o primeiro paredão com pinturas rupestres. Subindo quase imperceptivelmente, chegamos ao ponto de acampamento, após 19 km a pé, em torno de um casebre de madeira com tesouros recônditos: água encanada e um fogão a lenha, que nos proporcionaram banho quente naquele ermo a 1200 metros sobre o mar. Vinho, violão e céu estrelado tornaram o jantar indescritível. 

No dia seguinte, visitamos duas veredas, com seus emblemáticos buritis, sustentando cachos de cocos com até dois metros de comprimento, sempre emoldurados pelas sempre-vivas. Entre as duas, passamos pela Lapa da Anta, com uma representação do animal em tamanho natural, de nitidez e realismo impressionantes. Veredas são os oásis do sertão, e buriti significa, em linguagem indígena, “árvore da vida”: planta que teria todos os ingredientes necessários à sobrevivência. Nosso guia nos foi então mostrando pegadas na areia úmida: anta, tamanduá, lobo guará, veado, onça parda, seriema, tatu canastra... Descrevemos então um arco no chapadão, rumo a leste, e passamos a enxergar de novo o Espinhaço à nossa frente. Breve parada para banho num poço de águas límpidas nos renovou. 

Encontramos um caminho de tropeiros, com calçamento de pedras, pelo qual seguimos: a antiga Trilha do Algodão, que escoava o produto do norte de Minas para as tecelagens em torno de Diamantina. Logo à frente, enorme paredão com imagens de santos, hoje alvo de peregrinação. Trata-se da Lapa da Maria Augusta, rica fazendeira que, segundo a tradição, ali promovia tocaias para roubar e matar os transeuntes. Exaustos, ainda subimos uma crista a 1400 m, antes da descida íngreme até os 750 m de altitude de Joaquim Felício, onde nos esperavam banho e jantar, completando 28 km de espetacular caminhada neste segundo dia! 

Também três são as cidades no seu entorno: Buenópolis, Joaquim Felício e Lassance. As duas primeiras surgiram em torno de paradas do trem que liga Beagá a Montes Claros. A última, antigo reduto pecuário, foi onde o genial Carlos Chagas descobriu a doença que leva seu nome, transmitida ao homem por barbeiros que infestavam as casas de pau-a-pique e adobe.

As chapadas - com predominância de gramíneas, e incontáveis cursos d’água – as veredas – com seus indefectíveis buritis, matas ciliares e sempre-vivas. Afloramentos de quartzito, com relevo ruiniforme, abrigam cactáceas, bromélias e orquídeas, além de pinturas rupestres. Além disso, na região, em Augusto de Lima e no distrito de Curimataí, há duas das quatro fontes termais do Espinhaço.

Tamanha riqueza de flora e fauna motivou a criação do Parque Estadual da Serra do Cabral, em torno de 30 mil hectares. Ainda não aberto ao turismo, sua administração tem sido bastante restritiva na concessão de autorizações de visita. Mas há várias áreas fora dos limites do parque que podem ser visitadas, com belas cachoeiras, como a de Curimataí, e outras nos municípios citados.

Talvez a melhor época para passear por lá seja de abril a julho, logo após o período das chuvas. Fizemos caminhada de dois dias, de grau difícil, no mês de maio 2012, saindo de Buenópolis, passando em pequeno trecho do território de Lassance, no alto da serra, e descendo em Joaquim Felício, após 47 km.

A van subiu a serra até onde pôde, a uns 800 metros de altitude. A partir daí, continuamos subindo pela estradinha e, com pouco mais de hora caminhando, desviamos para banho num poço à direita. Rumo ao leste, o Espinhaço descortinava os morros próximos a Diamantina. Retomando o trajeto, agora por trilha, adentramos ao chapadão, já em torno de 1100 metros de altitude, serpenteando por extensas faixas de pepalantus (uma espécie de sempre-viva) floridos. Caminhantes calejados por décadas revelaram jamais terem visto tal profusão delas!

Pouco mais à frente, o primeiro paredão com pinturas rupestres. Subindo quase imperceptivelmente, chegamos ao ponto de acampamento, após 19 km a pé, em torno de um casebre de madeira com tesouros recônditos: água encanada e um fogão a lenha, que nos proporcionaram banho quente naquele ermo a 1200 metros sobre o mar. Vinho, violão e céu estrelado tornaram o jantar indescritível. 

No dia seguinte, visitamos duas veredas, com seus emblemáticos buritis, sustentando cachos de cocos com até dois metros de comprimento, sempre emoldurados pelas sempre-vivas. Entre as duas, passamos pela Lapa da Anta, com uma representação do animal em tamanho natural, de nitidez e realismo impressionantes. Veredas são os oásis do sertão, e buriti significa, em linguagem indígena, “árvore da vida”: planta que teria todos os ingredientes necessários à sobrevivência. Nosso guia nos foi então mostrando pegadas na areia úmida: anta, tamanduá, lobo guará, veado, onça parda, seriema, tatu canastra... Descrevemos então um arco no chapadão, rumo a leste, e passamos a enxergar de novo o Espinhaço à nossa frente. Breve parada para banho num poço de águas límpidas nos renovou. 

Encontramos um caminho de tropeiros, com calçamento de pedras, pelo qual seguimos: a antiga Trilha do Algodão, que escoava o produto do norte de Minas para as tecelagens em torno de Diamantina. Logo à frente, enorme paredão com imagens de santos, hoje alvo de peregrinação. Trata-se da Lapa da Maria Augusta, rica fazendeira que, segundo a tradição, ali promovia tocaias para roubar e matar os transeuntes. Exaustos, ainda subimos uma crista a 1400 m, antes da descida íngreme até os 750 m de altitude de Joaquim Felício, onde nos esperavam banho e jantar, completando 28 km de espetacular caminhada neste segundo dia! 

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