20 Agosto 2011Acessos: 1739

Travessia Capivari ao Parque do Rio Preto

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Este é o relato de bela travessia organizada pelo grupo Caminhada Mineira, nas fraldas do Espinhaço, próximo a Diamantina. Foram ao todo 64 km, percorridos a pé em três dias, com dois pernoites. É necessária autorização prévia da direção do Parque Estadual do Rio Preto. O trajeto segue ao pé dos picos do Itambé (2002 m de altitude) e Dois Irmãos (1830 m), os dois pontos mais altos da porção norte do Espinhaço mineiro. Ambos ficam um pouco desgarrados do espigão-mestre, cercados pelo relevo fortemente ondulado do "mar de morros", que caracteriza o lado leste do Estado. (veja os detalhes da travessia).

O ponto de partida foi a pacata, simpática e arcaica vila de Capivari. Seguindo de Serro para Diamantina na estrada antiga, hoje em obra de pavimentação, entra-se à direita 4 km antes da badalada Milho Verde. Daí, segue-se por mais 10 km em estrada de terra. A vila tem recebido investimentos na recomposição das fachadas coloniais de suas casas, e na capacitação de moradores para o programa de turismo solidário, em que os visitantes ficam hospedados nas casas dos nativos, podendo compartilhar de seu modo de vida, culinária e tradições. É ponto de partida para a trilha que vai ao topo do Itambé pelo vale do Jequitinhonha. Lá, encontramo-nos com o Sr. Santo, nosso guia, anfitrião no primeiro pernoite no local conhecido com Bica d'água, onde reside com a família. Forneceu-nos também apoio valioso de dois burros, que levaram a maior parte da bagagem.

 De Capivari, a 1090 m sobre o mar, seguimos por estradinha transitável por automóvel nos primeiros 4 km, até uma sede de fazenda, com o Itambé a nos guiar, como o fez aos bandeirantes e tropeiros, desde o início do século XVIII. Daí, tomamos uma trilha em subida, e iniciamos o contorno de um costão rochoso menor, conhecido como serra da Bicha, em lembrança das onças que por lá já houve. Com mais uma hora de subida, chega-se a um riacho com bom poço para banho. Tome mais subida, e chegamos a 1350 m de altura, no limite do parque estadual do Itambé, onde avistamos a trilha de subida ao pico, à direita.

Logo à frente, descortina-se amplo vale formado pelo córrego Bica d'água, limitado por majestoso paredão de quartzito do maciço do Itambé, avermelhado ao sol da tarde. A trilha mergulha no vale, com alguns trechos íngremes em meio ao relevo ruiniforme e pequenos remanescentes de mata, até se tornar quase plana, descendo ao longo da margem esquerda do córrego. A 19 km de Capivari, chega-se à casa do Sr. Santo, à beira de uma aconchegante cascata, abrigada do vento, bem no sopé da serra da Bicha, a 1080 m de altura. Aí nos esperavam o conforto de um banho quente, um franguinho caipira feito no fogão a lenha e sobretudo a hospitalidade de uma família que, vivendo num dos locais mais isolados, tendo apenas lâmpadas alimentadas por bateria solar, nos abrigou generosamente.

No dia seguinte, descemos ao longo do córrego, atravessamo-lo numa pinguela, subimos o morro adiante, com o Itambé às nossas costas. Então, nova descida nos conduz até o encontro do Bica d'água com o Jequitinhonha Preto, uma das duas nascentes do grande rio, a 1000 m de altitude. Logo após atravessá-lo noutra pinguela, há bom poço para banho, ladeado por uma prainha. A trilha segue em relevo ondulado, cruzando o córrego sobre um sumidouro, antes de chegar num moinho d'água em prefeito funcionamento. Pouco adiante, passa-se dentro de um curral ao lado de uma casa, e inicia-se subida íngreme rumo à chapada, planalto agreste entre os maciços do Itambé e Dois Irmãos. Após uma escola, avista-se à direita a cachoeira de Santa Cruz. Acaba aí o trecho habitado. A vegetação muda para campo rupestre, dourado pelo sol da tarde e encimado pelo céu azul profundo. Entre os dois, os blocos cinzentos do Itambé e a serra da Bicha. Finalmente, a 1650 m de altura, chega-se ao limite do parque do rio Preto, e à placa que sinaliza sua nascente. O maciço que surge à nossa direita é o topo do Dois Irmãos. Suavemente, a trilha desce até a altitude de 1350 m, onde fica a casa dos guarda-parques. Próximo a ela, fica outra casa equipada com camas e cozinha, cuja disponibilidade pode ser consultada junto à direção do parque. Ufa, neste segundo dia cumprimos 23 km, com grande desnível . Contudo, a beleza da paisagem e das plantas é deslumbrante.

No último dia, após pequena subida no início da manhã, em meio a blocos erodidos de quartzito, iniciamos longa e suave descida ao longo do rio das Éguas. Em torno do meio-dia chegamos à fascinante cachoeira do Crioulo: extenso paredão, donde desce estreita queda d'água enchendo amplo poço com praia de areia branca. Após banho e lanche, descemos ao longo do leito de pedras, rumo à cachoeira das Sempre-vivas, passando por várias piscinas naturais. No entorno destas, uma profusão de Droseras, plantas insetívoras de cor vermelha. Chega-se então à cachoeira, larga cortina d'água formando duchas, escorrendo daí para um grande poço que abriga peixes de uns dois palmos de comprimento. Trata-se da piabanha, endêmica da bacia do rio Preto. Daí para frente, ao longo do canyon do rio, uma sucessão de poços belíssimos. Pena não haver tempo para nadar em cada um...

Por fim, percorridos mais 22 km, chega-se à sede do parque, onde restaurante, banheiros limpos e um banho quente fecham o passeio com chave de ouro, neste que é um dos mais bem geridos parques do Brasil!

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